quinta-feira, 8 de junho de 2017

O SUPLICIO DE "SEU LEITE" DA VENEZA, NAS MÃOS DO BANDO DE LAMPIÃO.



Manoel Barreto Leite, ficou durante
06 dias nas mãos do bando de Lampião.
FONTE; DANTAS, 2014.
Com a entrada do famigerado grupo de Lampião no Rio Grande do Norte, pairava a sua frente as noticias que alertavam as pessoas a que altura das estradas se localizavam a horda de desordeiros. “Corre! Lampião vem aí...”, era a frase que se repetia pelos sítios que estavam no caminho do bando do desordeiro pernambucano.

Manoel Barreto Leite, jovem proprietário de um sítio chamado Veneza, seguia caminho em seu cavalo para a cidade de Martins. Parecia ignorar o fato da proximidade de Lampião daquela região. Era por volta das 3 horas da tarde do dia 11 de junho de 1927.

Ao chegar às proximidades do sítio Corredor, por uma estrada que hoje não é mais usada, foi surpreendido pela horda desgraçada, que a sua frente trazia o pobre senhor Manuel Raulino, da fazenda Morcego, que guiava o famigerado bando pelas veredas circundantes da serra de Martins. Sabino coberto de poder, o interroga. O coitado do “Seu Leite”, respondeu a todos os questionamentos proferidos pelo bandoleiro e logo recebeu sua sentença; estava preso e sua liberdade estava orçada em 50 contos réis, conforme afirma o dito prisioneiro em depoimento prestado a policia depois que foi libertado pelo bando.

Existem outras versões levantadas com relação ao preço do resgate de “Seu Leite”. No depoimento prestado a policia de Martins no dia 15 de setembro de 1927, pelo preso Francisco Ramos de Andrade, conhecido no bando pela alcunha de “Mormaço”, foi dito que o valor estipulado pelo bando para a sua liberdade foi de 05 contos de réis. Já no diário do Cel. Antônio Gurgel, está escrito que a liberdade deste individuo estava orçada em 02 contos de réis.

Depois de atar as mãos do novo prisioneiro e ter liberado o velho Manoel Raulino, “Seu Leite” foi nomeado guia, pois ele sabia os caminhos que levavam a Boa Esperança. Ficou neste posto até a captura do tangedor João de Doca e seu ajudante, nas proximidades da Vila. Nesta ocasião juntou-se ele à Dona Maria José Lopes e ao velho Joaquim Moreira, que já vinham em companhia do bando desde o município de Luiz Gomes.

Velho Caminho de acesso ao Corredor. Neste lugar foi onde
a fração do bando comandada por Sabino, capturou "Seu Leite".
FONTE; Expedito Neto, 2014.

Depois de toda a quebradeira patrocinada pelo bando no pequeno arruado, seguiu a horda desordeira pela noite até chegarem a fazenda de Egidio Dias, que foi também tomado como refém, partindo com o bando com destino a Mossoró.

Os cangaceiros já não pediam mais segredo com relação a sua presença naquelas terras.
Sitio Caboré, chegava a feliz hora do descanso da tropa de bandidos e prisioneiros. Egidio Dias, como se não temesse a morte, prepara a sua fuga. Convida Manoel Barreto a participar daquela arriscada empreitada, porém, o jovem fazendeiro declina do convite e oferece a sua discrição.

É chegada a hora. Egidio Dias parecia ter medido os passos que ia dar e em questão de segundos, se some na mata ainda verde, resultado do bom inverno que atingira aquelas terras. Nenhum dos cangaceiros percebeu a fuga, e logo, também, se iniciava o fogo travado entre alguns homens que vinham resgatar o que há minutos tinha fugido, com a força do bandoleiro Lampião. Tombaram três; Sebastião, Bartolomeu e Francisco.

Ao terminar o massacre e já tendo visto que um dos prisioneiros havia fugido, o Cangaceiro Capuxú, arrasta Manoel Barreto Leite até o local da chacina e o obriga a segurar pelos ombros o corpo de Bartolomeu Dias, que mesmo depois de morto foi esfaqueado diversas vezes, tendo, inclusive, seus olhos arrancados e suas vísceras colocadas para fora.

Manoel Barreto assistia aquilo assustado. Nunca havia presenciado tamanha barbaridade.

Seguiu o bando o seu destino.

Na altura da fazenda Sant’ana o bando faz mais um prisioneiro; Cel. Antônio Gurgel. Relata ele em seu diário que existiam sob domínio de Lampião dois prisioneiros, D Maria José e o Velho Joaquim Moreira. Então, onde estaria o jovem “Seu Leite”?

Em uma fotografia tirada no dia 16 de junho de 1927 em Limoeiro do Norte, podemos perceber a presença de Manoel Leite, que está vestido aparentemente como os cangaceiros, talvez daí tivesse surgido essa afirmativa do dileto coronel.

Fotografia tirada em Limoeiro do Norte em 16 de junho de 1927.
Manoel Barreto esta destacado com circulo vermelho. Ao seu lado está Joaquim
Moreira, Cel Antonio Gurgel e dona Maria José Lopes, respectivamente.
FONTE; blog Cariri Cangaço.

No ataque a Mossoró, no dia 13 de junho, ficaram os presos aquartelados nas proximidades da cidade sob o olhar atento de 06 cangaceiros, dentre os quais estava Casca Grossa, morto pela força policial de Martins e sepultado no mato, nas proximidades do sítio Boágua.

Partindo daquela cidade em fuga, chegaram os malfeitores a cidade de Limoeiro do Norte, no estado do Ceará, no dia 15 de junho de 1927. Lá, Lampião e seu bando descansaram, concederam entrevistas a jornais e foram fotografados por um fotografo da cidade que pediu a Lampião para registrar aquele momento.

O padre Vital Lucena, ficou responsável por arrecadar da população de Limoeiro 10 contos de réis para ajudar aos silvícolas que muito havia perdido no ataque ao Rio Grande do Norte. O pobre padre só conseguiu arrecadar 02 contos e ao entregar ao capitão Lampião, este não reclamou e ficou satisfeito.

Padre Vital, ainda, tentou interceder pelos quatro seqüestrados, porém somente a um o chefe do banditismo liberou, Manoel Barreto Leite.

Logo aquele jovem recebeu as orientações e voltou ao sítio Veneza, sua propriedade e de seus familiares, que o recepcionaram com bastante alegria e emoção.

Ao saber da promessa que havia sido feita pelos senhores Manoel Joaquim de Queiroz, Vicente Antonio Cardozo e Francisco Felix, logo se juntou ao trio e com grata satisfação a Deus e a São Sebastião, contribuiu para a construção do oratório fincado no meio da serra da Veneza.






REFERÊNCIAS:
CRISTOVÃO, C. Antônio Martins Terra da boa esperança. Natal: Sebo Vermelho, 2003. 228 p.

DANTAS, S. A. S. Lampião e o Rio Grande do Norte; a história da grande jornada. 2ª Ed. Cajazeiras/PB; Gráfica Real, 2014. 450 p.



NONATO, R. Lampião em Mossoró. 5ª Ed. Mossoró/RN; Fundação Vingt-Un Rosado, Jul. 1998. 256 p.

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