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| Flagelados da Seca de 1877/1878. Imagem retirada da Internet. |
Por Viriato Correa, 1912;
A seca ia, naquele ano, flageladora e cruel. Tinham corrido
pelas cercanias dos sertão as tormentas da fome, as agruras revoltas da miséria
e da desgraça. Não haveria mais pelos celeiros um punhado de farinha para
enganar o estômago, nem pelas cozinhas a fita azul do fumo dos fogões denunciando
que se comia.
O verão batera formidável. Desde Julho que o céu se tornara
daquele azul intenso de safira translúcida, um azul ofuscante e ardente, que
punha visões faiscantes nos olhos e tonteiras cegadoras na visão.
Não havia um prenuncio de chuva. Era sempre o mesmo céu,
duramente azul, descampado e cru, sem uma nuvem branca alegrando os horizontes,
os prados perderam a fresca coloração das ramarias e das flores, os campos não tiveram
mais a claridade do verde e a ondulação das tintas, os morros ficaram
sombriamente sem tufos de verdura, e as matas, dia a dia, tornaram-se de um
amarelo cada vez mais tristonho. E, quando o sopro violento do verão passava,
ia carregando para longe turbilhões de rolos de folhas caídas.
Nos roçados nem uma semente rebentou, não houve nos baixos o
alaranjado fosco dos arrozais em cachos, nem uma palma de pindoba tremeu; tudo
tomou a taciturnidade de ruína _ ruínas de troncos, coivarados combustos
deitados aos montões, pela capoeira sem vida.
Dezembro veio. O Natal passou, viúvo de sambas e palpitares
da viola à beira das latadas. Chegou janeiro, e janeiro foi-se e os laranjais não
floriram, as raparigas do campo não toucaram os cabelos, e os terreiros não tiveram
voluptuosidades de danças.
Pássaros deixaram o veludo dos ninhos: bateram plumas para
longe, em busca de copas e sombras. As manhãs nasciam sem asas e gorjeios, umas
manhãs furiosamente iluminadas, flamejadoras e grandes, com cambiâncias e estridências
ásperas de fogo e clarões.
Os poentes eram largos incêndios de ouro, largos jorros de
sangue, derramados profusamente pelo céu; e, quando pela terra caíam as
primeiras sombras crepusculares, o sol ficava ainda no fundo, pregado na curva
do firmamento, colossal e redondo, a comburir, como uma chapa de bronze,
vibrando de incandescência.
Ninguém mais teve sossego. Velhos matutos lembraram preces
pela desolação do campo. E preces foram feitas. Mas a chuva não caiu, e o sol
ficou sendo o mesmo sol de tragédia, a rolar de horizonte para horizonte, a
nascer as mesmas horas, a percorrer os mesmos caminhos.
Maio entrou e maio saiu, sem um florão nos ramos das
arvores, sem os trinta e um dias de festa em honra de Maria: sambas ao luar,
saracoteios de chorado ardendo nos terreiros. As violas dormiam desencordeadas
pelos cantos das palhoças, e as rimas das trovas nunca mais afloraram à boca
dos troveiros.
Os olhos d’água secaram, os riachos mostraram a nudez dos
leitos. Foi preciso cavar a terra, para que se encontrasse no fundo o que beber.
Campos, matas, baixios e prados eram vastos desertos, miseravelmente
desempanados às amarguras do povo; os arvoredos, perdendo de todo os últimos verdores,
eram imensos esqueletos, erguendo os galhos desfolhados numa agonia súplice de
quem pede frescuras.
O gado andou a principio tonteando de campo em campo, à
procura de uma touça verde, para comer. Depois malhadas de touros passaram dispersadamente,
a berrar, em busca de uma poça d’água; e mais tarde, pela claridade do espaço,
urubus voaram, ao cheiro das carniças: e, por longos dias, de manhã e à noite,
houve pela ruína da floresta a angustia de uma musica _ a musica amargurada dos
bois que choravam junto a podridão dos companheiros mortos.
Em pouco, grossos tufões de fumo rolaram espaço a riba: o
calor chegou ao timbre da tortura. Clarões tingiram de vermelho a escuridão das
noites, labaredas lampejavam pelo anil do firmamento: era o incêndio, lavrando
amplitudes infinitas, o incêndio que rebentava das matas, sem que se soubesse
como, e que ia triunfal pelo sertão, destruindo casebres e povoados, numa
devastação de fim de mundo. E adeus tranqüilidade, adeus sonhos fartos de
colheita, adeus farinhadas álacres.
Era a fome, era somente a fome inexorável, tirânica,
macabra, que ia de porta em porta, de celeiro em celeiro, enrugando rostos,
pondo corações em sobressalto.
Fizeram-se novas preces. Povoados inteiros saíam pela
extensão dos campos, desciam baixadas e galgavam morros, ajoelhavam pela dureza
das pedras, pelas escarpas e barrancos, de mãos erguidas aflitamente, a pedir
uma gota d’água a Deus.
E nem sinais de chuva.
Era sempre o sol, aquele mesmo sol gigantesco, que tornava
tudo, sempre azul, aquele mesmo azul tão lindo que fazia mal, um azul de
sedução, que embriagava e endoidecia e parecia ter agulhas para nos ferir o
olhar.
NOTA: Este texto foi retirado do livro "Nosso Brasil" escrito em 1944 por Luiz Amaral Wagner e era destinado ao ensino do 04º grau do primário.






