quinta-feira, 8 de junho de 2017

O SUPLICIO DE "SEU LEITE" DA VENEZA, NAS MÃOS DO BANDO DE LAMPIÃO.



Manoel Barreto Leite, ficou durante
06 dias nas mãos do bando de Lampião.
FONTE; DANTAS, 2014.
Com a entrada do famigerado grupo de Lampião no Rio Grande do Norte, pairava a sua frente as noticias que alertavam as pessoas a que altura das estradas se localizavam a horda de desordeiros. “Corre! Lampião vem aí...”, era a frase que se repetia pelos sítios que estavam no caminho do bando do desordeiro pernambucano.

Manoel Barreto Leite, jovem proprietário de um sítio chamado Veneza, seguia caminho em seu cavalo para a cidade de Martins. Parecia ignorar o fato da proximidade de Lampião daquela região. Era por volta das 3 horas da tarde do dia 11 de junho de 1927.

Ao chegar às proximidades do sítio Corredor, por uma estrada que hoje não é mais usada, foi surpreendido pela horda desgraçada, que a sua frente trazia o pobre senhor Manuel Raulino, da fazenda Morcego, que guiava o famigerado bando pelas veredas circundantes da serra de Martins. Sabino coberto de poder, o interroga. O coitado do “Seu Leite”, respondeu a todos os questionamentos proferidos pelo bandoleiro e logo recebeu sua sentença; estava preso e sua liberdade estava orçada em 50 contos réis, conforme afirma o dito prisioneiro em depoimento prestado a policia depois que foi libertado pelo bando.

Existem outras versões levantadas com relação ao preço do resgate de “Seu Leite”. No depoimento prestado a policia de Martins no dia 15 de setembro de 1927, pelo preso Francisco Ramos de Andrade, conhecido no bando pela alcunha de “Mormaço”, foi dito que o valor estipulado pelo bando para a sua liberdade foi de 05 contos de réis. Já no diário do Cel. Antônio Gurgel, está escrito que a liberdade deste individuo estava orçada em 02 contos de réis.

Depois de atar as mãos do novo prisioneiro e ter liberado o velho Manoel Raulino, “Seu Leite” foi nomeado guia, pois ele sabia os caminhos que levavam a Boa Esperança. Ficou neste posto até a captura do tangedor João de Doca e seu ajudante, nas proximidades da Vila. Nesta ocasião juntou-se ele à Dona Maria José Lopes e ao velho Joaquim Moreira, que já vinham em companhia do bando desde o município de Luiz Gomes.

Velho Caminho de acesso ao Corredor. Neste lugar foi onde
a fração do bando comandada por Sabino, capturou "Seu Leite".
FONTE; Expedito Neto, 2014.

Depois de toda a quebradeira patrocinada pelo bando no pequeno arruado, seguiu a horda desordeira pela noite até chegarem a fazenda de Egidio Dias, que foi também tomado como refém, partindo com o bando com destino a Mossoró.

Os cangaceiros já não pediam mais segredo com relação a sua presença naquelas terras.
Sitio Caboré, chegava a feliz hora do descanso da tropa de bandidos e prisioneiros. Egidio Dias, como se não temesse a morte, prepara a sua fuga. Convida Manoel Barreto a participar daquela arriscada empreitada, porém, o jovem fazendeiro declina do convite e oferece a sua discrição.

É chegada a hora. Egidio Dias parecia ter medido os passos que ia dar e em questão de segundos, se some na mata ainda verde, resultado do bom inverno que atingira aquelas terras. Nenhum dos cangaceiros percebeu a fuga, e logo, também, se iniciava o fogo travado entre alguns homens que vinham resgatar o que há minutos tinha fugido, com a força do bandoleiro Lampião. Tombaram três; Sebastião, Bartolomeu e Francisco.

Ao terminar o massacre e já tendo visto que um dos prisioneiros havia fugido, o Cangaceiro Capuxú, arrasta Manoel Barreto Leite até o local da chacina e o obriga a segurar pelos ombros o corpo de Bartolomeu Dias, que mesmo depois de morto foi esfaqueado diversas vezes, tendo, inclusive, seus olhos arrancados e suas vísceras colocadas para fora.

Manoel Barreto assistia aquilo assustado. Nunca havia presenciado tamanha barbaridade.

Seguiu o bando o seu destino.

Na altura da fazenda Sant’ana o bando faz mais um prisioneiro; Cel. Antônio Gurgel. Relata ele em seu diário que existiam sob domínio de Lampião dois prisioneiros, D Maria José e o Velho Joaquim Moreira. Então, onde estaria o jovem “Seu Leite”?

Em uma fotografia tirada no dia 16 de junho de 1927 em Limoeiro do Norte, podemos perceber a presença de Manoel Leite, que está vestido aparentemente como os cangaceiros, talvez daí tivesse surgido essa afirmativa do dileto coronel.

Fotografia tirada em Limoeiro do Norte em 16 de junho de 1927.
Manoel Barreto esta destacado com circulo vermelho. Ao seu lado está Joaquim
Moreira, Cel Antonio Gurgel e dona Maria José Lopes, respectivamente.
FONTE; blog Cariri Cangaço.

No ataque a Mossoró, no dia 13 de junho, ficaram os presos aquartelados nas proximidades da cidade sob o olhar atento de 06 cangaceiros, dentre os quais estava Casca Grossa, morto pela força policial de Martins e sepultado no mato, nas proximidades do sítio Boágua.

Partindo daquela cidade em fuga, chegaram os malfeitores a cidade de Limoeiro do Norte, no estado do Ceará, no dia 15 de junho de 1927. Lá, Lampião e seu bando descansaram, concederam entrevistas a jornais e foram fotografados por um fotografo da cidade que pediu a Lampião para registrar aquele momento.

O padre Vital Lucena, ficou responsável por arrecadar da população de Limoeiro 10 contos de réis para ajudar aos silvícolas que muito havia perdido no ataque ao Rio Grande do Norte. O pobre padre só conseguiu arrecadar 02 contos e ao entregar ao capitão Lampião, este não reclamou e ficou satisfeito.

Padre Vital, ainda, tentou interceder pelos quatro seqüestrados, porém somente a um o chefe do banditismo liberou, Manoel Barreto Leite.

Logo aquele jovem recebeu as orientações e voltou ao sítio Veneza, sua propriedade e de seus familiares, que o recepcionaram com bastante alegria e emoção.

Ao saber da promessa que havia sido feita pelos senhores Manoel Joaquim de Queiroz, Vicente Antonio Cardozo e Francisco Felix, logo se juntou ao trio e com grata satisfação a Deus e a São Sebastião, contribuiu para a construção do oratório fincado no meio da serra da Veneza.






REFERÊNCIAS:
CRISTOVÃO, C. Antônio Martins Terra da boa esperança. Natal: Sebo Vermelho, 2003. 228 p.

DANTAS, S. A. S. Lampião e o Rio Grande do Norte; a história da grande jornada. 2ª Ed. Cajazeiras/PB; Gráfica Real, 2014. 450 p.



NONATO, R. Lampião em Mossoró. 5ª Ed. Mossoró/RN; Fundação Vingt-Un Rosado, Jul. 1998. 256 p.

sábado, 20 de maio de 2017

PERSONAGENS; Antônio Martins Fernandes de Carvalho

FOTO; Chagas Cristovão, 2003.
“Estamos, politicamente, vivendo com amor de mais!”
-Antônio Martins Fernandes de Carvalho.

Antônio Martins Fernandes de Carvalho nasceu na residência do senhor Bianor Fernandes na cidade de Martins no dia 6 de setembro de 1905, filho de Joaquim Inácio de Carvalho e de Maria Gomes de Oliveira Carvalho, residentes no sítio Pico Branco, onde passou toda a sua infância.

Aprendeu as primeiras letras no Grupo Escolar Almino Afonso. Seu pai, ao ver a sua dedicação aos estudos, o manda para estudar na cidade de Caicó. Concluindo lá, logo foi enviado para o Rio de Janeiro, onde estudou no Colégio Dom Pedro II. Logo ingressou no curso de Medicina da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, colando grau no dia 03 de outubro de 1932, no Teatro “João Caetano”, ás 16 horas da tarde.

Voltando a sua terra natal, o Rio Grande do Norte, foi nomeado médico da Policia Militar do estado por influência de seu irmão e então prefeito de Natal, Joaquim Ignácio de Carvalho Filho. Trabalhou também como radiologista no hospital Jovino Barreto (atual Hospital Onofre Lopes, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte). Foi neste período de intensos trabalhos que ele conheceu Maria Edith Fernandes, filha do Empresário Alfredo Fernandes.

Ficou noivo de Edith no dia 13 de junho de 1934, quando trabalhava como medico na cidade de Mossoró. Casou-se no dia 22 de maio de 1936, na igreja de Santo Antônio, em Natal. Deste consorcio nasceu apenas um filho, Sergio José Fernandes.

Depois de casado, retornou ao Rio de Janeiro, onde assumiu a gerencia da empresa de seu sogro, a Alfredo Fernandes & Cia, que nos anos 50 mudou o nome para Algodoeira Fernandes S/A.

A paixão pela política, herdada de sua família, o fez se filiar a UDN (União Democrática Nacional) ainda em 1928. Concorreu em 1952 ao cargo de prefeito da cidade de Portalegre, dando vitória ao seu partido. Naquele município realizou inúmeros benefícios. Por pressão dos seus munícipes, concorreu a deputado federal, conseguindo 13.079 votos. Não conseguiu se eleger, mas ficou sendo o primeiro suplente de seu partido, ainda o UDN.

Ocupou uma cadeira na bancada do seu partido na Câmara, por duas vezes; de 17 de abril a 30 de julho de 1956 e de 24 de abril a 14 de novembro de 1957.

No dia 15 de novembro de 1957, numa sexta-feira, na fazenda Moquém (propriedade de seu Irmão, José Inácio de Carvalho), depois de escrever sete cartas destinadas a alguns parentes e amigos, suicidou-se com apenas um tiro no peito.

Estava assim encerrada a carreira daquele homem publico.

Logo a noticia se espalhou e no dia 16 de novembro, embarcava o corpo do ex-deputado em um avião especial da FAB (força Aérea Brasileira), que a pedido de sua esposa, foi sepultado no Rio de Janeiro, contrariando a sua vontade de ser sepultado na terra que tanto amou, Martins.

Chegou ao Rio de janeiro por volta das 18 horas do dia 16 de novembro e seguiu direto para o Palácio Tiradentes, onde ficou exposto em câmara ardente por toda a noite e manhã do dia 17. Depois seguiu o seu esquife para a Capela Real Grandeza, onde foi recomendado e em seguida seguiu para o cemitério São João batista, onde até os dias de hoje, descansa.

A comoção tomou de conta de todos os que conviveram com ele e ao mesmo tempo, se perguntavam o Porquê daquilo que acontecera com um homem simples, assistencialista e apaixonado pela sua terra. Até hoje se desconhece os reais motivos que o levaram a isto.

A HOMENAGEM PÓSTUMA

Jocelyn Villar de Melo, casado com Alzira Carvalho, irmã de Antônio Martins, então Deputado Estadual, resolveu emancipar o Distrito de Demétrio Lemos e ao mesmo tempo homenagear o seu cunhado a quem tinha grande admiração. Logo encaminhou ao Palácio do Governo o Decreto nº 334 de 17 de dezembro de 1958.


O Governador do Estado, Dinarte Mariz, declarou este Decreto inconstitucional, sendo este engavetado, até o ano de 1962 quando houve novamente a tentativa de emancipar Antônio Martins, então Distrito de Demétrio Lemos, do município de Martins, sendo efetivada somente no dia 26 de Março de 1963. 

FONTES:
CRISTOVÃO, C. Antônio Martins Terra da boa esperança. Natal: Sebo Vermelho, 2003. 228 p.
CÂM. DEP. Deputados; TRIB. SUP. ELEIT. Dados.
 Jornal da tarde, Rio de Janeiro. 17/ Nov./1957.
A luta democrática, Rio de Janeiro. 17/ Nov./1957.
Diário de Natal, Natal. 16/Nov./1957.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

A FEIRA LIVRE DE ANTÔNIO MARTINS/RN E A SUA CRIAÇÃO

Manchete do Jornal "A Ordem", de 1402/1937.
As Feiras que aqui ocorrem semanalmente, iniciaram-se no ano de 1903 e foram idealizadas pelo saudoso Justino Ferreira de Souza. Foi pela liderança dele que se armou a primeira tenda, que se deu o primeiro grito chamando os fregueses, que se iniciou as relações de comercio entre os moradores do lugarejo e dos comerciantes de cidades vizinhas.

A seca naquele ano de 1903 foi flageladora e cruel. Corria pelo sítio Boa Esperança e sítios vizinhos, o monstro da fome e da peste, que caíram por toda região do Oeste Potiguar, dizimando o que fosse vivo. Logo a recém criada feira, acabou. Não tinha mais produtos para serem comercializados e os poucos que haviam, ou eram estocados, ou vendidos a valores exorbitantes.

 A seca iniciou no começo de 1903 e só teve fim, no inicio de 1905, quando surgiu novamente as barraquinhas coloridas em frente a antiga capela de Santo Antônio.

Outros períodos de estiagem houve nos anos de 1910, 1914/1915 e 1919/1921. E a pequena feira sofria. Semanas tinham, outras não, sendo a situação normalizada somente no ano de 1929, conforme afirma o Mestre Câmara Cascudo.

A partir daí, foi escolhido a sexta-feira como o dia oficial das feiras do Sítio Boa Esperança.
Logo Justino Ferreira preocupou-se em buscar junto às autoridades do município de Martins, um lugar para melhor acomodar os feirantes que vinham de diferentes lugares, comercializarem os produtos na “feira da Boa Esperança”.

O prefeito de Martins, entendendo a necessidade do lugarejo que crescia em população e na economia, ordenou que iniciassem as obras. Justino esteve à frente do grupo de trabalhadores que ergueram as primeiras paredes. Infelizmente uma congestão cerebral¹, causada talvez pelo estresse de ter que resolver todos os problemas do Sítio Boa Esperança, tirou a vida de Justino Ferreira de Souza, que não teve o prazer de participar da inauguração e de ver sendo usada mais uma obra pensada e buscada por ele, em favor do seu povo. Deixou a terra que adotou como sua, no dia 11 de agosto de 1935.
A feira faz parte de nossa cultura, de nossa História. FOTO; Francisco Florentino.

Mesmo com o mercado inaugurado, a feira da Boa Esperança, ainda sofria com a queda no numero de feirantes. Este fato fez com que no dia 28 de janeiro de 1937, o então prefeito de Martins, Antonio Marcelino de Souza Martins, por força do decreto de N° 12, mudasse o dia da feira do povoado de Boa Esperança, para o Domingo. Sendo que no dito decreto, mandava-se retirar uma cópia, para que fosse fixada na parede do mercado, informando assim, toda a comunidade sobre tal mudança.

A notícia ultrapassou os limites municipais e logo estava estampada nas folhas do jornal “A Ordem”, do dia 14 de fevereiro de 1937.

Antes, porém, Dom Jaime Câmara², bispo da Diocese de Mossoró, em visita pastoral a todas as cidades da Diocese, havia combinado com os lideres políticos de evitarem realizar qualquer evento aos domingos, guardando assim, os preceitos do cristianismo e do descanso dominical.

Quando ele tomou conhecimento do que havia decretado o prefeito do município de Martins, exigiu que o mesmo honrasse com o compromisso por ele assumido e voltasse a feira de Boa Esperança para a sexta feira, prometendo inclusive, queixar-se ao governador do Estado, contando tudo o que havia acontecido naquele município e pedindo a desaprovação desta considerada por ele de “Infeliz Lei”.


Daqueles dias pra cá, já se passaram 80 anos e a nossa feira ainda, continua aos domingos, atraindo comerciantes e pessoas de cidades vizinhas, que aqui buscam comprar ou vender mercadorias.



NOTAS:
¹ Segundo o jornal "A Ordem", este foi o motivo da morte de Justino Ferreira.
² Primeiro bispo da Diocese de Mossoró.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

A SECA


Flagelados da Seca de 1877/1878. Imagem retirada da Internet.

Por Viriato Correa, 1912;

A seca ia, naquele ano, flageladora e cruel. Tinham corrido pelas cercanias dos sertão as tormentas da fome, as agruras revoltas da miséria e da desgraça. Não haveria mais pelos celeiros um punhado de farinha para enganar o estômago, nem pelas cozinhas a fita azul do fumo dos fogões denunciando que se comia.

O verão batera formidável. Desde Julho que o céu se tornara daquele azul intenso de safira translúcida, um azul ofuscante e ardente, que punha visões faiscantes nos olhos e tonteiras cegadoras na visão.

Não havia um prenuncio de chuva. Era sempre o mesmo céu, duramente azul, descampado e cru, sem uma nuvem branca alegrando os horizontes, os prados perderam a fresca coloração das ramarias e das flores, os campos não tiveram mais a claridade do verde e a ondulação das tintas, os morros ficaram sombriamente sem tufos de verdura, e as matas, dia a dia, tornaram-se de um amarelo cada vez mais tristonho. E, quando o sopro violento do verão passava, ia carregando para longe turbilhões de rolos de folhas caídas.

Nos roçados nem uma semente rebentou, não houve nos baixos o alaranjado fosco dos arrozais em cachos, nem uma palma de pindoba tremeu; tudo tomou a taciturnidade de ruína _ ruínas de troncos, coivarados combustos deitados aos montões, pela capoeira sem vida.

Dezembro veio. O Natal passou, viúvo de sambas e palpitares da viola à beira das latadas. Chegou janeiro, e janeiro foi-se e os laranjais não floriram, as raparigas do campo não toucaram os cabelos, e os terreiros não tiveram voluptuosidades de danças.

Pássaros deixaram o veludo dos ninhos: bateram plumas para longe, em busca de copas e sombras. As manhãs nasciam sem asas e gorjeios, umas manhãs furiosamente iluminadas, flamejadoras e grandes, com cambiâncias e estridências ásperas de fogo e clarões.

Os poentes eram largos incêndios de ouro, largos jorros de sangue, derramados profusamente pelo céu; e, quando pela terra caíam as primeiras sombras crepusculares, o sol ficava ainda no fundo, pregado na curva do firmamento, colossal e redondo, a comburir, como uma chapa de bronze, vibrando de incandescência.

Ninguém mais teve sossego. Velhos matutos lembraram preces pela desolação do campo. E preces foram feitas. Mas a chuva não caiu, e o sol ficou sendo o mesmo sol de tragédia, a rolar de horizonte para horizonte, a nascer as mesmas horas, a percorrer os mesmos caminhos.

Maio entrou e maio saiu, sem um florão nos ramos das arvores, sem os trinta e um dias de festa em honra de Maria: sambas ao luar, saracoteios de chorado ardendo nos terreiros. As violas dormiam desencordeadas pelos cantos das palhoças, e as rimas das trovas nunca mais afloraram à boca dos troveiros.

Os olhos d’água secaram, os riachos mostraram a nudez dos leitos. Foi preciso cavar a terra, para que se encontrasse no fundo o que beber. Campos, matas, baixios e prados eram vastos desertos, miseravelmente desempanados às amarguras do povo; os arvoredos, perdendo de todo os últimos verdores, eram imensos esqueletos, erguendo os galhos desfolhados numa agonia súplice de quem pede frescuras.

O gado andou a principio tonteando de campo em campo, à procura de uma touça verde, para comer. Depois malhadas de touros passaram dispersadamente, a berrar, em busca de uma poça d’água; e mais tarde, pela claridade do espaço, urubus voaram, ao cheiro das carniças: e, por longos dias, de manhã e à noite, houve pela ruína da floresta a angustia de uma musica _ a musica amargurada dos bois que choravam junto a podridão dos companheiros mortos.

Em pouco, grossos tufões de fumo rolaram espaço a riba: o calor chegou ao timbre da tortura. Clarões tingiram de vermelho a escuridão das noites, labaredas lampejavam pelo anil do firmamento: era o incêndio, lavrando amplitudes infinitas, o incêndio que rebentava das matas, sem que se soubesse como, e que ia triunfal pelo sertão, destruindo casebres e povoados, numa devastação de fim de mundo. E adeus tranqüilidade, adeus sonhos fartos de colheita, adeus farinhadas álacres.

Era a fome, era somente a fome inexorável, tirânica, macabra, que ia de porta em porta, de celeiro em celeiro, enrugando rostos, pondo corações em sobressalto.

Fizeram-se novas preces. Povoados inteiros saíam pela extensão dos campos, desciam baixadas e galgavam morros, ajoelhavam pela dureza das pedras, pelas escarpas e barrancos, de mãos erguidas aflitamente, a pedir uma gota d’água a Deus.

E nem sinais de chuva.


Era sempre o sol, aquele mesmo sol gigantesco, que tornava tudo, sempre azul, aquele mesmo azul tão lindo que fazia mal, um azul de sedução, que embriagava e endoidecia e parecia ter agulhas para nos ferir o olhar.







NOTA: Este texto foi retirado do livro "Nosso Brasil" escrito em  1944 por Luiz Amaral Wagner e era destinado ao ensino do 04º grau do primário.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

PENA, TINTA E PAPEL; O DIÁRIO COM MAIS DE 150 ANOS DE HISTÓRIA.

O pequeno diário. FOTO; Expedito Neto.
O que cabe em um caderno medindo pouco mais de 11 centímetros por 07 de largura e com apenas 08 páginas? Muitos iam responder que quase nada daria para nisto escrever. E se por acaso eu falasse que foram nestas poucas e pequenas paginas que foi escrito quase 150 anos de história de apenas uma família?! Pois bem, isto aconteceu e passo agora a descompactar as informações escritas outrora;

Certo dia eu fui ver o que havia dentro de um pequeno baú existente na casa de minha avó, que pertencia a minha falecida bisavó que o ganhou de herança de seu pai. Dentro deste baú de madeira com uma pintura já gasta pelo tempo, encontrei vários papeis amarelados e gastos pelo tempo. O que mais me chamou atenção foi um pequeno livreto de capa preta, unidos com um pequeno pedaço de tecido de algodão da cor vermelha. Sua estrutura física não era das melhores. Todas as suas folhas já estavam soltas, o mofo já encobria algumas paginas e o tempo se encarregava de apagar o que ali estava escrito.

Naquele pequeno memorial que passou de geração em geração, encontrei algumas informações, que vieram a enriquecer mais ainda minhas pesquisas. Primeiramente descobri que ele pertenceu a Mathias Fernandes dos Santos, nascido em 02 de julho de 1842, filho do casal Agostinho dos Santos Rosa e Marianna Gomes de Amorim e falecido a 23 de agosto de 1915.

Letra de Mathias Fernandes dos Santos FOTO;Expedito Neto.
Outra informação que me surpreendeu foi de que este Mathias, no dia 20 de Janeiro de 1865, quando ele tinha 22 anos, havia se casado com Angelina Maria da Conceição que no dia 25 de setembro de 1870, quando tinha apenas 35 anos, faleceu, deixando seu filho Antônio, único filho do casal, com 02 meses e 18 dias de nascido.

Mathias dos Santos casou-se a segunda vez com Marianna da Natividade de Jesus no mês de outubro de 1871 e com ela teve 09 filhos. Devido ao tempo, somente alguns nomes ficaram, são eles; Agostinho nascido no dia 09 de março de 1874, Eleutherio nascido em 02 de agosto de 1875, Angelina nascida no mês de fevereiro de 1877, Laurentino e Mathias que eram gêmeos, nascidos em 23 de fevereiro de 1878, Felismina nascida em 29 de abril de 1879 e Maria nascida 27 de agosto de 1886.

Quando Mathias Fernandes dos Santos faleceu em 23 de agosto de 1915, o seu pequeno diário ficou com seu quinto filho por nome de Eleutherio Fernandes dos Santos, que registrou o falecimento de seu pai, de sua mãe em 25 de setembro de 1910, de sua avó paterna em 19 de abril de 1902, com 86 anos de idade e o nascimento de seus filhos, por ordem, assim como o seu pai fez outrora.

Letra de Eleutherio Fernandes dos Santos. FOTO; Expedito Neto.
Quando Eleutherio faleceu em 28 de outubro de 1958, este diário ficou para sua filha Rita Maria de Jesus, que o guardou junto com os seus versos e poesias.

Eis ai a importância de possuirmos um caderninho ou um diário para anotarmos o que se passa de importante nos nossos dias. Esta é a forma de nos eternizarmos no tempo.






quarta-feira, 2 de novembro de 2016

OUTROS PERSONAGENS DE NOSSA HISTÓRIA.


Forte dos Reis magos, no brasil holndês. Foto; Rostand Medeiros.

A nossa História foi escrita por inúmeros personagens, que só por viver em dado lugar, marcou nosso passado. infelizmente muitos ainda não foram descobertos, mas não podemos negar a sua contribuição para a nossa História, para o nosso tempo de outrora. 

Os personagens descritos abaixo, fizeram seu papel. Deram sua contribuição à formação do nosso território que como diz Câmara Cascudo "Foi conquistado desde o tempo dos tapuias e das onças vadias!" 


SÉCULO XVIII

AFONSO DE ALBUQUERQUE MARANHÃO; foi um dos primeiros sesmeiros do município, chegando nesta região em 16 de Abril de 1706. Era filho de Matias de Albuquerque (Governador da Paraiba), era fidalgo cavaleiro da casa real, senhor de engenho em Cunhaú e capitão-mor de Goianinha. Casou-se com Isabel de Barros Pacheco e foi nomeado pelo capitão-mor Bernardo Vieira de Melo, sargento-mor das entradas do sertão. Chegou a capitania do Rio grande em 1687, com a missão de ajudar a combater os índios rebeldes.

PADRE MESTRE MANUEL DE JESUS BORGES; chegou neste território juntamente com Afonso de Albuquerque Maranhão. Era padre da Companhia de Cristo e tinha por missão nesta terra, servir de interprete entre os Colonizadores e os Índios que por aqui viviam.

JOSÉ DA COSTA; Era um índio Tapuia Panati, que vivia juntamente com seu grupo nas proximidades da Lagoa do Urai (hoje, lagoa do Junco ou do Pinhão). Chegou na Fazenda Serra Branca (hoje, Sítio Xiquexique) em 1723 por ocasião de uma seca, onde foi tomado por escravo, sendo alforriado em 1755, quando a coroa portuguesa extinguiu este tipo de escravidão. No ano de 1759, serviu de testemunha na demarcação da Fazenda Barriguda, hoje Alexandria/RN.

SALVADOR FERNANDES DA COSTA; Chegou nestas terras por volta de 1712 ainda como posseiro e só requereu as terras por ele ocupadas, no ano de 1732. O Curral da Serra, como ele suplica ao capitão-mor da Capitânia do Rio Grande, logo passou a se chamar Fazenda Serra Branca e depois Sítio Xiquexique. Em documentos de 1750, ele já aparece como defunto.

IGNACIO DA ROCHA MENDONÇA DE CARVALHO; Pediu uma data de sesmaria no Riacho do Pico Branco, juntamente com Francisco Barreto Maciel em 17 de Outubro de 1745. Na carta de data e sesmaria de Francisco de Freitas Jardim de 1752, é citado como Sargento-mor. Construiu a primeira moradia do Sítio Pico Branco, onde viveu até os anos de sua morte, deixando para seus herdeiros, sua residência e suas terras. É ele o Patriarca da família Carvalho do nosso município.

FRANCISCO DE FREITAS JARDIM: Suplicou duas cartas de data e sesmaria no ano de 1752, sendo a primeira no Riacho dos Porcos e a segunda no Olho d’água da Catunda (Cafunga). As terras por ele suplicada, serviu de palco para a eclosão do Sítio Boa Esperança em  aproximadamente 1845. Dentro de suas terras passava o antigo caminho de gado que partia da serra de Francisco Martins Roriz e seguia até Catolé do Rocha/PB.


SÉCULO XIX

MANUEL FERREIRA DA SILVA SANTIAGO; Grande senhor de escravos e proprietário das terras que hoje compreende o Sítio Tamanduá, Serrinha do Major (recebeu este nome em alusão ao dito proprietário) e Sitio Baixa, onde seus herdeiros em meados de 1845 construíram a casa grande lá existente. Era ele o proprietário de aproximadamente 20 negros que trabalhavam em suas plantações. Era neto do sesmeiro Francisco de Freitas Jardim.

FRANCISCO BARBOSA; Era escravo do Major Manuel Ferreira da Silva Santiago. Comprou sua alforria e vivia livre ao lado de sua esposa e filhos. Certo dia foi traído pelos seus próprios amigos e vendido para um dono de fazenda do Estado de Minas Gerais. Inconformado com o que acontecera, fugiu na calada da noite e iniciou uma caminhada com direção ao Norte. Só andava durante a noite para não ser preso. Somente seis meses depois, chegou ao Sitio Serrinha do Major.

FRANCELINO JOSÉ DE QUEIROZ: Era filho de José Joaquim de Queiroz e Sá e Isabel Fernandes de Queiroz. Casou-se duas vezes, a primeira com Maria José de Lacerda e a segunda com Clara Gomes de Amorim. Foi o principal responsável pela povoação do Sítio Pinhão. Possuia ainda, inúmeras partes de terras, frutos de heranças e compras. Foi nomeado Alferes da 51º Batalhão de Infantaria no ano de 1895.

JOAQUIM IGNACIO DE CARVALHO FILHO; Nasceu no Sítio Pico Branco em 6 de Fevereiro de 1888. Foi diretor de escola, promotor de justiça, juiz, deputado, vice-governador e prefeito de Natal e Martins/RN. Era filho de Joaquim Ignacio de carvalho e Maria Gomes de Oliveira Carvalho. Faleceu em 09 de Junho de 1948.


PEDRO PANPARRA; Era escravo alforriado. Morava no sopé da serra da Veneza. Exímio cantor foi assassinado com golpes de mão de pilão pela sua esposa e sogra. Foi sepultado no fogão de sua residência e só foi encontrado depois de alguns dias, quando um caçador, sentindo sua falta, resolveu ir até a dita casa. Ao chegar ao dito lugar, este, foi surpreendido por alguns urubus que estavam assentados no telhado da residência. Elas tinham matado ele e o sepultado no fogão. A notícia do crime bárbaro se espalhou e logo as assassinas foram presas.


Ainda existem muitos personagens que fizeram e ainda fazem o município de Antônio Martins/RN.


FONTE;

FUNDAÇÃO VINGT-UN ROSADO. INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO RIO GRANDE DO NORTE. 2000a. Sesmarias do Rio Grande do Norte. Mossoró: Gráfica Tércio Rosado/ESAM. v.1 (1600-1716).

 FUNDAÇÃO VINGT-UN ROSADO. INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO RIO GRANDE DO NORTE. 2000b. Sesmarias do Rio Grande do Norte. Mossoró: Gráfica Tércio Rosado/ESAM. v.2 (1716-1742).

FUNDAÇÃO VINGT-UN ROSADO. INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO RIO GRANDE DO NORTE. 2000c. Sesmarias do Rio Grande do Norte. Mossoró: Gráfica Tércio Rosado/ESAM. v.3 (1742-1764).

CASCUDO, Luís da Câmara. 1968. Nomes da Terra: história, geografia e toponímia do Rio Grande do Norte. Natal: Fundação José Augusto.

CRISTOVÃO, C. Antônio Martins Terra da boa esperança. Natal: Sebo Vermelho, 2003. 228 p.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

ESCOLA ESTADUAL DESEMBARGADOR SINVAL MOREIRA DIAS, 80 ANOS DE HISTÓRIA E SONHOS.

Era nos idos da década de 1930, a vila de Vasto Horizonte, primeiro nome de Pilões/RN, já não era mais um sítio. Os casarios já ladeavam a Capela de Nossa Senhora do Perpetuo Socorro e se espaçavam entre as matas de mofumbo e velame.  Seus moradores eram os agentes do progresso que aos poucos chegava naquele lugar.

 Em meados de 1936, chega ao povoado a noticia de que em breve aquele lugar começaria a contar com um grupo escolar que seria o responsável por abrigar os alunos que lá aprenderiam os primeiros rudimento das letras e as quatro operações. A escola Isolda que antes funcionava no Sítio Figueiredo, hoje município de João Dias/RN, seria transferida para o Vasto Horizonte haja vista o crescimento acelerado na qual o povoado passava. Não demorou muito e logo se iniciou a construção do grupo escolar. Ficando o trabalho a cargo da prefeitura do município de Alexandria/RN, representada na época pelo prefeito municipal, Francisco de Paiva Cavalcante. 


No dia 30 de abril de 1937, a Escola Isolada do Figueiredo foi transferia oficialmente para a Vila de Vasto horizonte com o nome de Escola Reunidas de Vasto Horizonte, por força do decreto de numero 254/37 assinado pelo então presidente da ALRN (Assembléia Legislativa do Rio Grande do Norte), Monsenhor José da Mota Silva. 

A partir dai o então Povoado do Vasto Horizonte galgava um novo patamar, uma nova fase no crescimento, fase esta marcada pelo inicio da escolarização de crianças e jovens que na maioria das vezes, deixavam os seus sítios e a pé, percorriam longas distâncias para chegar até a Escola que ficava onde hoje funciona a Pré-Escola Magna Rodrigues.

O tempo passou e em 23 de Novembro de 1951, a Escola Reunidas de Vasto Horizonte, através da lei nº 44/51, passou a ser chamada de “Desembargador Sinval Moreira Dias”, em homenagem ao Natalense nascido em 23 de Dezembro de 1893. Esta lei foi assinada pelo então governador do Estado do Rio Grande do Norte, Silvio Pedroza. 
Flagrante realizado em frente a antiga sede da escola por ocasião do desfile de 07 de setembro.

Com a emancipação política da Vila de Pilões a município de Pilões/RN em 19 de agosto de 1963, ela passou a ser a única instituição de ensino da recém criada cidade. Em meados do ano de 1980 foi inaugurada a nova sede da Escola, construída na Rua José Bezerra.

Depois de algum tempo foi construída e Escola Municipal Joana Dantas de Moura e a Escola Estadual Francisco Antônio de Moura, onde estas assumiram o papel da educação fundamental, deixando ela responsável somente pelo ensino médio.
Escola Estadual Des. Sinval Moreira Dias. FONTE; Retirada da Internet.


Seu terreno mede 2.468,71 metros quadrados, onde 978,04 metros quadrados são construídos. Possui um galpão, uma cozinha, dois banheiros, três salas de aula, uma sala de computadores, um laboratório de ciências, um almoxarifado e uma sala onde funciona a secretaria, a diretoria e a biblioteca.

Atualmente a EEDSMD passa por muitos problemas, onde o pior é o abandono que o governo estadual tem para com ela. Mas isto não é desculpa usada pelos professores que junto com os alunos sofrem com a falta de estrutura e de materiais necessários para a execução das aulas.

É ela o solo fértil de onde brota anualmente novos universitários e novos formados que, atuando nas diversas áreas, não esquecem suas raízes de onde saíram e de onde levam as mais gratas lembranças que nem os rudes golpes que por vezes os abalam a existência, conseguiram dissipar.



Des. Sinval Moreira Dias.
QUEM FOI O DESEMBARGADOR SINVAL MOREIRA DIAS?

Filho do Desembargador Manuel Moreira Dias e Etelvina Moreira Dias, nasceu em 23 de Dezembro de 1893 na cidade do Natal e foi batizado com o nome de Manuel Sinval Moreira Dias.

Formou-se em Direito na Faculdade do Recife em 1913 e antes de sua magistratura atuou como Advogado em Aracati/CE no ano de 1913, Delegado da 4ª Delegacia Regional de Policia com sede em Martins/RN durante os anos de 1914 a 1924 e Deputado Estadual.

No ano de 1925 foi nomeado Juiz de Direito da 1ª entrância da comarca de Macau/RN, pouco tempo depois, pediu para ser transferido para a comarca de São Miguel/RN. No ano de 1930 foi transferido para a comarca de Caicó/RN. Ao termino da década de 30, foi transferido para a comarca de Natal/RN, onde serviu na segunda e terceira vara. Em 29 de outubro de 1934, foi promovido a Desembargador do Tribunal de Justiça.

No TJRN, foi eleito Vice-Presidente por sete vezes: 1937, 1938, 1939, 1940, 1941, 1942 e 1949. E Presidente por duas vezes: em 03/01/45 e 08/09/49.

Faleceu em Natal em 27 de Agosto de 1951 de causas naturais.








FONTE;
Portal do tribunal de justiça do RN. Disponível em: <http://www.tjrn.jus.br/index.php/institucional/galeria-dos-presidentes> Acesso em 27 de outubro de 2016.
Assembléia Legislativa do RN. Disponível em: <http://www.al.rn.gov.br/portal/mlp>. Acesso em 28 de outubro de 2016.