segunda-feira, 28 de novembro de 2016

A SECA


Flagelados da Seca de 1877/1878. Imagem retirada da Internet.

Por Viriato Correa, 1912;

A seca ia, naquele ano, flageladora e cruel. Tinham corrido pelas cercanias dos sertão as tormentas da fome, as agruras revoltas da miséria e da desgraça. Não haveria mais pelos celeiros um punhado de farinha para enganar o estômago, nem pelas cozinhas a fita azul do fumo dos fogões denunciando que se comia.

O verão batera formidável. Desde Julho que o céu se tornara daquele azul intenso de safira translúcida, um azul ofuscante e ardente, que punha visões faiscantes nos olhos e tonteiras cegadoras na visão.

Não havia um prenuncio de chuva. Era sempre o mesmo céu, duramente azul, descampado e cru, sem uma nuvem branca alegrando os horizontes, os prados perderam a fresca coloração das ramarias e das flores, os campos não tiveram mais a claridade do verde e a ondulação das tintas, os morros ficaram sombriamente sem tufos de verdura, e as matas, dia a dia, tornaram-se de um amarelo cada vez mais tristonho. E, quando o sopro violento do verão passava, ia carregando para longe turbilhões de rolos de folhas caídas.

Nos roçados nem uma semente rebentou, não houve nos baixos o alaranjado fosco dos arrozais em cachos, nem uma palma de pindoba tremeu; tudo tomou a taciturnidade de ruína _ ruínas de troncos, coivarados combustos deitados aos montões, pela capoeira sem vida.

Dezembro veio. O Natal passou, viúvo de sambas e palpitares da viola à beira das latadas. Chegou janeiro, e janeiro foi-se e os laranjais não floriram, as raparigas do campo não toucaram os cabelos, e os terreiros não tiveram voluptuosidades de danças.

Pássaros deixaram o veludo dos ninhos: bateram plumas para longe, em busca de copas e sombras. As manhãs nasciam sem asas e gorjeios, umas manhãs furiosamente iluminadas, flamejadoras e grandes, com cambiâncias e estridências ásperas de fogo e clarões.

Os poentes eram largos incêndios de ouro, largos jorros de sangue, derramados profusamente pelo céu; e, quando pela terra caíam as primeiras sombras crepusculares, o sol ficava ainda no fundo, pregado na curva do firmamento, colossal e redondo, a comburir, como uma chapa de bronze, vibrando de incandescência.

Ninguém mais teve sossego. Velhos matutos lembraram preces pela desolação do campo. E preces foram feitas. Mas a chuva não caiu, e o sol ficou sendo o mesmo sol de tragédia, a rolar de horizonte para horizonte, a nascer as mesmas horas, a percorrer os mesmos caminhos.

Maio entrou e maio saiu, sem um florão nos ramos das arvores, sem os trinta e um dias de festa em honra de Maria: sambas ao luar, saracoteios de chorado ardendo nos terreiros. As violas dormiam desencordeadas pelos cantos das palhoças, e as rimas das trovas nunca mais afloraram à boca dos troveiros.

Os olhos d’água secaram, os riachos mostraram a nudez dos leitos. Foi preciso cavar a terra, para que se encontrasse no fundo o que beber. Campos, matas, baixios e prados eram vastos desertos, miseravelmente desempanados às amarguras do povo; os arvoredos, perdendo de todo os últimos verdores, eram imensos esqueletos, erguendo os galhos desfolhados numa agonia súplice de quem pede frescuras.

O gado andou a principio tonteando de campo em campo, à procura de uma touça verde, para comer. Depois malhadas de touros passaram dispersadamente, a berrar, em busca de uma poça d’água; e mais tarde, pela claridade do espaço, urubus voaram, ao cheiro das carniças: e, por longos dias, de manhã e à noite, houve pela ruína da floresta a angustia de uma musica _ a musica amargurada dos bois que choravam junto a podridão dos companheiros mortos.

Em pouco, grossos tufões de fumo rolaram espaço a riba: o calor chegou ao timbre da tortura. Clarões tingiram de vermelho a escuridão das noites, labaredas lampejavam pelo anil do firmamento: era o incêndio, lavrando amplitudes infinitas, o incêndio que rebentava das matas, sem que se soubesse como, e que ia triunfal pelo sertão, destruindo casebres e povoados, numa devastação de fim de mundo. E adeus tranqüilidade, adeus sonhos fartos de colheita, adeus farinhadas álacres.

Era a fome, era somente a fome inexorável, tirânica, macabra, que ia de porta em porta, de celeiro em celeiro, enrugando rostos, pondo corações em sobressalto.

Fizeram-se novas preces. Povoados inteiros saíam pela extensão dos campos, desciam baixadas e galgavam morros, ajoelhavam pela dureza das pedras, pelas escarpas e barrancos, de mãos erguidas aflitamente, a pedir uma gota d’água a Deus.

E nem sinais de chuva.


Era sempre o sol, aquele mesmo sol gigantesco, que tornava tudo, sempre azul, aquele mesmo azul tão lindo que fazia mal, um azul de sedução, que embriagava e endoidecia e parecia ter agulhas para nos ferir o olhar.







NOTA: Este texto foi retirado do livro "Nosso Brasil" escrito em  1944 por Luiz Amaral Wagner e era destinado ao ensino do 04º grau do primário.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

PENA, TINTA E PAPEL; O DIÁRIO COM MAIS DE 150 ANOS DE HISTÓRIA.

O pequeno diário. FOTO; Expedito Neto.
O que cabe em um caderno medindo pouco mais de 11 centímetros por 07 de largura e com apenas 08 páginas? Muitos iam responder que quase nada daria para nisto escrever. E se por acaso eu falasse que foram nestas poucas e pequenas paginas que foi escrito quase 150 anos de história de apenas uma família?! Pois bem, isto aconteceu e passo agora a descompactar as informações escritas outrora;

Certo dia eu fui ver o que havia dentro de um pequeno baú existente na casa de minha avó, que pertencia a minha falecida bisavó que o ganhou de herança de seu pai. Dentro deste baú de madeira com uma pintura já gasta pelo tempo, encontrei vários papeis amarelados e gastos pelo tempo. O que mais me chamou atenção foi um pequeno livreto de capa preta, unidos com um pequeno pedaço de tecido de algodão da cor vermelha. Sua estrutura física não era das melhores. Todas as suas folhas já estavam soltas, o mofo já encobria algumas paginas e o tempo se encarregava de apagar o que ali estava escrito.

Naquele pequeno memorial que passou de geração em geração, encontrei algumas informações, que vieram a enriquecer mais ainda minhas pesquisas. Primeiramente descobri que ele pertenceu a Mathias Fernandes dos Santos, nascido em 02 de julho de 1842, filho do casal Agostinho dos Santos Rosa e Marianna Gomes de Amorim e falecido a 23 de agosto de 1915.

Letra de Mathias Fernandes dos Santos FOTO;Expedito Neto.
Outra informação que me surpreendeu foi de que este Mathias, no dia 20 de Janeiro de 1865, quando ele tinha 22 anos, havia se casado com Angelina Maria da Conceição que no dia 25 de setembro de 1870, quando tinha apenas 35 anos, faleceu, deixando seu filho Antônio, único filho do casal, com 02 meses e 18 dias de nascido.

Mathias dos Santos casou-se a segunda vez com Marianna da Natividade de Jesus no mês de outubro de 1871 e com ela teve 09 filhos. Devido ao tempo, somente alguns nomes ficaram, são eles; Agostinho nascido no dia 09 de março de 1874, Eleutherio nascido em 02 de agosto de 1875, Angelina nascida no mês de fevereiro de 1877, Laurentino e Mathias que eram gêmeos, nascidos em 23 de fevereiro de 1878, Felismina nascida em 29 de abril de 1879 e Maria nascida 27 de agosto de 1886.

Quando Mathias Fernandes dos Santos faleceu em 23 de agosto de 1915, o seu pequeno diário ficou com seu quinto filho por nome de Eleutherio Fernandes dos Santos, que registrou o falecimento de seu pai, de sua mãe em 25 de setembro de 1910, de sua avó paterna em 19 de abril de 1902, com 86 anos de idade e o nascimento de seus filhos, por ordem, assim como o seu pai fez outrora.

Letra de Eleutherio Fernandes dos Santos. FOTO; Expedito Neto.
Quando Eleutherio faleceu em 28 de outubro de 1958, este diário ficou para sua filha Rita Maria de Jesus, que o guardou junto com os seus versos e poesias.

Eis ai a importância de possuirmos um caderninho ou um diário para anotarmos o que se passa de importante nos nossos dias. Esta é a forma de nos eternizarmos no tempo.






quarta-feira, 2 de novembro de 2016

OUTROS PERSONAGENS DE NOSSA HISTÓRIA.


Forte dos Reis magos, no brasil holndês. Foto; Rostand Medeiros.

A nossa História foi escrita por inúmeros personagens, que só por viver em dado lugar, marcou nosso passado. infelizmente muitos ainda não foram descobertos, mas não podemos negar a sua contribuição para a nossa História, para o nosso tempo de outrora. 

Os personagens descritos abaixo, fizeram seu papel. Deram sua contribuição à formação do nosso território que como diz Câmara Cascudo "Foi conquistado desde o tempo dos tapuias e das onças vadias!" 


SÉCULO XVIII

AFONSO DE ALBUQUERQUE MARANHÃO; foi um dos primeiros sesmeiros do município, chegando nesta região em 16 de Abril de 1706. Era filho de Matias de Albuquerque (Governador da Paraiba), era fidalgo cavaleiro da casa real, senhor de engenho em Cunhaú e capitão-mor de Goianinha. Casou-se com Isabel de Barros Pacheco e foi nomeado pelo capitão-mor Bernardo Vieira de Melo, sargento-mor das entradas do sertão. Chegou a capitania do Rio grande em 1687, com a missão de ajudar a combater os índios rebeldes.

PADRE MESTRE MANUEL DE JESUS BORGES; chegou neste território juntamente com Afonso de Albuquerque Maranhão. Era padre da Companhia de Cristo e tinha por missão nesta terra, servir de interprete entre os Colonizadores e os Índios que por aqui viviam.

JOSÉ DA COSTA; Era um índio Tapuia Panati, que vivia juntamente com seu grupo nas proximidades da Lagoa do Urai (hoje, lagoa do Junco ou do Pinhão). Chegou na Fazenda Serra Branca (hoje, Sítio Xiquexique) em 1723 por ocasião de uma seca, onde foi tomado por escravo, sendo alforriado em 1755, quando a coroa portuguesa extinguiu este tipo de escravidão. No ano de 1759, serviu de testemunha na demarcação da Fazenda Barriguda, hoje Alexandria/RN.

SALVADOR FERNANDES DA COSTA; Chegou nestas terras por volta de 1712 ainda como posseiro e só requereu as terras por ele ocupadas, no ano de 1732. O Curral da Serra, como ele suplica ao capitão-mor da Capitânia do Rio Grande, logo passou a se chamar Fazenda Serra Branca e depois Sítio Xiquexique. Em documentos de 1750, ele já aparece como defunto.

IGNACIO DA ROCHA MENDONÇA DE CARVALHO; Pediu uma data de sesmaria no Riacho do Pico Branco, juntamente com Francisco Barreto Maciel em 17 de Outubro de 1745. Na carta de data e sesmaria de Francisco de Freitas Jardim de 1752, é citado como Sargento-mor. Construiu a primeira moradia do Sítio Pico Branco, onde viveu até os anos de sua morte, deixando para seus herdeiros, sua residência e suas terras. É ele o Patriarca da família Carvalho do nosso município.

FRANCISCO DE FREITAS JARDIM: Suplicou duas cartas de data e sesmaria no ano de 1752, sendo a primeira no Riacho dos Porcos e a segunda no Olho d’água da Catunda (Cafunga). As terras por ele suplicada, serviu de palco para a eclosão do Sítio Boa Esperança em  aproximadamente 1845. Dentro de suas terras passava o antigo caminho de gado que partia da serra de Francisco Martins Roriz e seguia até Catolé do Rocha/PB.


SÉCULO XIX

MANUEL FERREIRA DA SILVA SANTIAGO; Grande senhor de escravos e proprietário das terras que hoje compreende o Sítio Tamanduá, Serrinha do Major (recebeu este nome em alusão ao dito proprietário) e Sitio Baixa, onde seus herdeiros em meados de 1845 construíram a casa grande lá existente. Era ele o proprietário de aproximadamente 20 negros que trabalhavam em suas plantações. Era neto do sesmeiro Francisco de Freitas Jardim.

FRANCISCO BARBOSA; Era escravo do Major Manuel Ferreira da Silva Santiago. Comprou sua alforria e vivia livre ao lado de sua esposa e filhos. Certo dia foi traído pelos seus próprios amigos e vendido para um dono de fazenda do Estado de Minas Gerais. Inconformado com o que acontecera, fugiu na calada da noite e iniciou uma caminhada com direção ao Norte. Só andava durante a noite para não ser preso. Somente seis meses depois, chegou ao Sitio Serrinha do Major.

FRANCELINO JOSÉ DE QUEIROZ: Era filho de José Joaquim de Queiroz e Sá e Isabel Fernandes de Queiroz. Casou-se duas vezes, a primeira com Maria José de Lacerda e a segunda com Clara Gomes de Amorim. Foi o principal responsável pela povoação do Sítio Pinhão. Possuia ainda, inúmeras partes de terras, frutos de heranças e compras. Foi nomeado Alferes da 51º Batalhão de Infantaria no ano de 1895.

JOAQUIM IGNACIO DE CARVALHO FILHO; Nasceu no Sítio Pico Branco em 6 de Fevereiro de 1888. Foi diretor de escola, promotor de justiça, juiz, deputado, vice-governador e prefeito de Natal e Martins/RN. Era filho de Joaquim Ignacio de carvalho e Maria Gomes de Oliveira Carvalho. Faleceu em 09 de Junho de 1948.


PEDRO PANPARRA; Era escravo alforriado. Morava no sopé da serra da Veneza. Exímio cantor foi assassinado com golpes de mão de pilão pela sua esposa e sogra. Foi sepultado no fogão de sua residência e só foi encontrado depois de alguns dias, quando um caçador, sentindo sua falta, resolveu ir até a dita casa. Ao chegar ao dito lugar, este, foi surpreendido por alguns urubus que estavam assentados no telhado da residência. Elas tinham matado ele e o sepultado no fogão. A notícia do crime bárbaro se espalhou e logo as assassinas foram presas.


Ainda existem muitos personagens que fizeram e ainda fazem o município de Antônio Martins/RN.


FONTE;

FUNDAÇÃO VINGT-UN ROSADO. INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO RIO GRANDE DO NORTE. 2000a. Sesmarias do Rio Grande do Norte. Mossoró: Gráfica Tércio Rosado/ESAM. v.1 (1600-1716).

 FUNDAÇÃO VINGT-UN ROSADO. INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO RIO GRANDE DO NORTE. 2000b. Sesmarias do Rio Grande do Norte. Mossoró: Gráfica Tércio Rosado/ESAM. v.2 (1716-1742).

FUNDAÇÃO VINGT-UN ROSADO. INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO RIO GRANDE DO NORTE. 2000c. Sesmarias do Rio Grande do Norte. Mossoró: Gráfica Tércio Rosado/ESAM. v.3 (1742-1764).

CASCUDO, Luís da Câmara. 1968. Nomes da Terra: história, geografia e toponímia do Rio Grande do Norte. Natal: Fundação José Augusto.

CRISTOVÃO, C. Antônio Martins Terra da boa esperança. Natal: Sebo Vermelho, 2003. 228 p.